• Daniela Ventura

Mudar de casa: desprendimentos e minimalismo

Um-dó-li-tá: quem tem de mudar de casa, de casa mudará.

Juro que foi isso que o raio do Universo me soprou ao ouvido assim que uma criatura com 50cm saiu da minha barriga!


Enxotei-o, mas ele é mais teimoso que uma mosca mole em pleno outono.

A verdade é que tinha um T1 e um filho que crescia a olhos vistos e bem sabia que não podia fechar os olhos a este facto por muito tempo.

Mas vejam bem: mudar de casa. MUDAR… quem é que não treme perante esta palavra? Pode ser de excitação ou de puro terror – mudar custa, dá trabalho, desafia-nos, faz-nos perder o controlo e traz, dentro da algibeira, o DESCONHECIDO. E estes dois, minha gente, quando se juntam! Podem ser assustadores.

Mariquices à parte, o que tem de ser, é – mas quando não estamos disponíveis para nos escutarmos, as coisas nem sempre são simples. Quando não estamos dispostos a investir um pouco do nosso tempo (e da nossa coragem) em nos conhecermos, a vida continua a “fluir”, mas em vez de irmos com ela dentro de uma canoa que desliza, simpaticamente, pelo rio – vamos, dentro da água, aos trambolhões, e ainda batemos com a cabeça em todas as pedras do raio do riacho! Chegamos lá na mesma… m bocadinho mais desgrenhados. 

A culpa é, também, da nossa (fraca) memória. Eu, quando era miúda, sabia: um dia, quero uma casa pequenina, um apartamento – simples e prático. Pudera – a minha mãe tinha uma moradia, de terraços infinitos – imaginem para limpar! No fundo, no fundo: já sabia que espaço para acumular não era bem para mim. Com o tempo esqueci-me disso e comprei um duplex de 2 andares. Com buracos escondidos… e água… humidade… madeira podre e bichos. Todos escondidos, os malandros!

E aprendi, lembrei-me, percebi: uma casa grande não é para mim. Gosto de passar o meu tempo livre a passear, a experienciar. Gosto de estar em casa, enroscada no sofá ou a explorar a minha criatividade. E isso não envolve originalidade de vassoura na mão. Também não sei porque fantasiei um escritório em casa: varreu-se-me da mente que – quando fico muito tempo em casa e sozinha – me sinto extremamente desmotivada e abatida! Preciso sair e ir trabalhar para algum sítio.

As tomadas de consciência acontecem (no meu caso, à base de paulada). Não se quer com isso dizer que a coisa se descomplique como que por artes mágicas. Tantas são as vezes que sabemos por onde ir, mas que teimamos em não querer ouvir. Tantas outras as que temos de respirar fundo e ganhar coragem para concretizar.

Um ano depois, com um filho (um gato e um namorado) nos braços – depois de pedir por sinais, de executar tortura mental a mim mesma, de muitos nervos e de noite mal digeridas: a magia acontece. Bastou pedir. Não vou dizer que bastou pedir e acreditar, pois eu sou daquele tipo de impostora que diz que confia, que confia – embora lá no fundo duvide. “Não há milagres e nem todos merecem – não seria tão fácil pedir e receber a resposta certa?”.

Gente, eu auto-boicoto-me. Confesso. Não sei onde fui buscar esta mania: mas faço-o.

Ora, acompanhem-me: pedi (lá acima) que a casa ideal aparecesse, pois tinha vendido a minha pedra no sapato. Como eu nem sempre ouço bem – pedinchei para que a resposta fosse clara. Eles deram-me uma casa, de bandeja. Um pequeno T2, onde podemos viver os 3, com vista para o mar. No sítio que desejava. Ao preço que podia. E eu, tal qual menina mimada: mas é pequeno, e não tem elevador, nem varandas, nem armários e nem estacionamento.


O que queria gritar era: é tão diferente do que estou habituada – vou precisar mudar tanto o meu estilo de vida – que estou apavorada! 

Pois bem, arregacei as mangas e comecei o ciclo de boicote com todas as forças que tinha! Imagino que lá, do lado de lá, aqueles a quem peço ajuda tenham ido de férias – caso contrário a avaria podia ter-me saído cara! 

Queridos: desde que parei de me debater – depois de ter gasto uma vasta porção de energia – e aceitei aquela casa – começou a minha “la vie en rose”. Vários sinais me haviam sido mostrados (uma creche para o meu filho na rua em frente a casa, uma loja de artigos de artes por baixo,…). Precisei de ignorá-los até estar cansada demais para continuar a lutar a favor do meu medo. 

O desafio não é só o de sair da minha zona de conforto e experimentar o novo: é, igualmente, o de me assumir um pouco mais da pessoa que sou e que é diferente dos espelhos da minha infância. Assumir perante mim e perante o mundo e, claro (e sempre, aceitar. 

Sou uma pessoa que ama a liberdade – e a sensação de libertação quando temos coragem de nos atirarmos para o novo, é gigante! 

Em 2019, agarrei no pára-quedas e saltei. 

Conto nunca mais parar de o fazer… 

(a menos que me esqueça)


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