• Daniela Ventura

Genealogia para principiantes



Porque somos pessoas criativas, porque somos curiosos ou porque gostamos de organização, história e antiguidade: a genealogia é uma disciplina (e arte) que a muitos apaixona. Nesta aventura, embarcam pessoas de todas as áreas que se comprometem em ser genealogistas, historiadoras, psicólogas, cartógrafas, investigadoras, linguístas e, até, paleógrafas.


Quantos de nós sabe o nome completo dos avós e bisavós? Quantos de nós conhece hábitos, forma de ser e estar e vivências dos nossos antepassados? Dei por mim a fazer perguntas simples como estas ou como "onde nasceu a minha trisavó?" e a ficar sem resposta. Em branco fica o espaço onde deveria estar o nome do meio da minha avó paterna e o primeiro da minha trisavó. Embora saiba que foi dela que veio a tinta cobre que deu vida aos meus cabelos e que viveu em Belmonte - desconhecia o seu nome próprio. Vi fotos dela e sustive, várias vezes, a respiração enquanto a minha bisavó Lúcia se emocionava porque eu "era tal e qual a mãe dela" - mas do que será que ela gostava e como soariam as gargalhadas dela?


O que gostava mesmo era de fazer uma árvore de vida de cada um dos meus antepassados - em que as suas emoções e os detalhes que coloriram as suas vidas também tivessem lugar. Cavar mais e mais fundo, devolveres-lhes a sua voz no meu mundo. No desafio que isso representa, comecei a perceber como poderia começar uma "simples" Árvore Genealógica. Partilho o que fui aprendendo.

Quando decidimos começar a saber mais sobre as nossas raízes, a estrada que temos pela frente pode parecer longa e assustadora. Há muito a recolher, catalogar, aprender e trabalhar. Como vamos encontrar as informações de que precisamos? Como as vamos documentar? Vamos por partes:


1. ENTREVISTAS


Comecei por recolher informações para a minha árvore genealógica com entrevistas às pessoas com mais idade. Como a maioria adora partilhar memórias, foram momentos agradáveis e, por vezes, extensos. Humor à parte, a verdade é que as pessoas mais idosas têm informações muito valiosas. E o tempo para as registrar, é agora.


Para as entrevistas é bom irmos já preparados com alguma pesquisa. Aproveitamos, depois, para confirmar as informações e partilhar registos e histórias familiares.


Fiz uma lista de membros da família, organizei-os por ordem de prioridade e comecei os contactos (maioria por telefone ou videochamada).


Nomes, datas de nascimento e fotografias foi o que pedi com maior regularidade, sendo que teria adorado gravar as entrevistas aos mais velhos. Talvez ainda o faça! As questões que tinha na minha lista foram:

  • Onde nasceu, data e hora?

  • Que se lembre, qual a primeira casa que morou?

  • Onde é que os seus pais nasceram?

  • Você ou a sua família mudaram-se ou imigraram durante vida? De onde, para onde e quando?

  • Quantos irmãos os seus pais tiveram? Quais os seus nomes? Onde nasceram e de onde eram?

  • Quais as histórias de família que se lembra?

  • Os nossos familiares estiveram em alguma guerra? Se sim, qual.

  • Porque é que tem esse nome e o que significa?

  • Mudou de nome ao longo da sua vida? Se sim, qual o actual e o anterior?

  • Quais eram os nomes e sobrenomes dos seus pais?

  • Como conheceu a sua esposa / o seu esposo?

  • Quem foram os seus padrinhos, o que lhe eram, como se chamavam e onde moravam?


2. MEMÓRIAS DE FAMÍLIA


Fotografias de família, heranças e outras recordações são alguns dos bens mais valiosos para se entrar numa história. A maioria dos parentes idosos ficará encantada em rever objectos que desencadeiam lembranças.


Por isso, nas minhas visitas procurei e pedi itens tais como:

  • Fotografias da família

  • Cartas antigas e convites para casamentos ou outros eventos

  • Anuários

  • Recortes de jornais

  • Registros oficiais como nascimento, morte e certidão de casamento

  • Registros educacionais, boletins e diplomas

  • Registros militares

  • Documentos religiosos como batismo ou registros de casamento

  • Heranças familiares como joias, livros e obras de arte


Enquanto se analisam estas relíquias em conjuntos, há sempre boas coisas e conversas que surgem! A quem pertenciam, onde e quando foram adquiridos, para o que é que eles foram usados, entre outras coisas.


No fim, perguntei se eles tinham algo a acrescentar.


3. ORGANIZAR A INFORMAÇÃO


Depois de concluirmos as fases acima, é necessário organizar as informações. No meu caso, criei uma pasta geral e, dentro da mesma, outras com os nomes das pessoas. Em cada nome, mais pastas: "vídeos", "fotografias" (de pessoas - que digitalizei), "objectos" e "documentos".


4. COMEÇAR A ÁRVORE


A história da nossa árvore genealógica passa por séculos e atravessa continentes. Cada membro da família é um universo, com uma vida inteira de histórias, lições e conclusões. São muitas informações (valiosas) para catalogar, assimilar, compartilhar e preservar.


Começar a árvore é fácil, pois iniciamos o processo pela nossa família mais directa e próxima. Mas, há um certo local, onde parece que pousamos num mar gelado e mal conseguimos manter-nos em pé!


Respirar fundo e ir por partes é o que temos de ter em mente:


4.1. Nome e Sobrenome

Muitos dos registros históricos são pesquisáveis por nome e é importante lembrar que os nomes das pessoas podem mudar ao longo das suas vidas. Em muitas culturas, a mulher adopta o nome da família do marido e os filhos herdam o sobrenome do pai, mas essa não é a regra para todos os locais! Na Espanha, por exemplo, as pessoas mantêm os mesmos dois sobrenomes (um paterno e outro materno) a vida inteira e os filhos ficam com o sobrenome da mãe. Na Islândia, o sobrenome de uma pessoa é composto pelo primeiro nome do seu pai (ou mãe), mais “sson” para um filho e “sdóttir” para uma filha, o que significa que o sobrenome muda a cada geração e é diferente dependendo do sexo. Outra razão para se mudar de nome é por motivos de imigração.


4.2. Datas e local de nascimento, casamento e óbito

Pesquisar um nome (especialmente se ele for comum) nem sempre funciona, a menos que se tenha uma ideia de quando e onde a pessoa morou. Com estes dados, conseguimos - através de vários sites e aplicações, saber mais sobre a pessoa.


4.3. Educação e Profissão

Perceber a educação de uma pessoa pode revelar muito sobre a sua vida, sendo que muitas escolas e faculdades mantêm um registro dos seus alunos, estes registos podem ser uma boa ferramenta para a nossa pesquisa.


As profissões também podem fornecer muita informação sobre quem era o parente: o que era importante para ele, quais suas habilidades e circunstâncias. E, muitos registros de censo (registos mantido pelo governo de um país para rastrear a população local) incluem a ocupação de uma pessoa.


4.4. Datas e local da imigração

Sou descendente de imigrantes. Eu mesma não nasci em Portugal. Descobrir a rota de imigração da nossa família é uma forma de nos aproximarmos da nossa própria cultura, sendo que fornece pistas sobre onde devemos procurar por outra geração. Os registros de imigração geralmente mencionam a origem do imigrante.


4.5. Características física

De onde vieram os meus cabelos ruivos? Esta era uma questão que permanecia em mim.

Descobrir as características físicas dos meus parentes deu-me uma compreensão mais profunda de quem sou. Também ajuda a criar uma imagem mais vívida para as gerações posteriores que podem não ter tido a chance de conhecer o parente, especialmente se não houver fotografias. Às vezes, as características físicas são anotadas nos registros militares.


E com estas 5 etapas – nomes, datas e locais de nascimento, morte e casamento, educação, profissão, detalhes de imigração e características físicas – transformamos a nossa árvore num retrato vivo de família!

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